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Liderança tóxica, não salário, é o que mais esvazia sua loja — e a NR-1 vai cobrar isso de você

Escutar o time deixou de ser gentileza e virou proteção jurídica para quem lidera — com a NR-1, não basta ter boa intenção: a empresa precisa de um canal formal, com protocolo e prazo, capaz de provar que agiu diante de cada denúncia

Retrato de Rafael Haddad

Rafael Haddad

Colunista · Varejo & Liderança

· 4 min de leitura

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Liderança tóxica, não salário, é o que mais esvazia sua loja — e a NR-1 vai cobrar isso de você
Eu sou supermercadista. Minha história começou de baixo — meu pai começou na feira, e foi de lá que eu aprendi o que é ganhar dinheiro suando a operação, loja por loja, colaborador por colaborador. Hoje treino redes de varejo em praticamente todo o Brasil, já passei por mais de 1.300 supermercados, e é por isso que eu não vou trazer aqui uma explicação teórica sobre a NR-1. Vou trazer o que eu vejo todos os dias dentro de loja, e por que isso deveria tirar o sono de qualquer dono ou gestor de operação.
A NR-1 não é norma nova. Existe desde a década de 70. Sempre olhou mais para risco físico, químico, ergonômico, acidente de trabalho. O que mudou — e mudou rápido — foi o peso que os riscos psicossociais passaram a ter dentro dela: estresse, sobrecarga, pressão por resultado, conflitos interpessoais, assédio moral e sexual. E o entendimento jurídico virou de cabeça para baixo. Até pouco tempo atrás, era o funcionário quem precisava provar que a empresa cometeu algum ato ilegal. Hoje a lógica se inverteu: é a empresa que precisa provar que está cumprindo a norma.
Isso muda tudo. E eu falo isso como quem atende rede grande, com quadro de funcionários enorme, e vejo cada vez mais loja sendo processada — com doença psicossocial como argumento central da ação.

O que eu vejo no chão de loja
Pego dois exemplos bem simples, do dia a dia. No açougue, o turnover é altíssimo, o absenteísmo é gigantesco, os acidentes aumentaram — porque trabalha pouca gente atrás do balcão, com cobrança excessiva e pressa no corte. Na padaria, a exigência do cliente cresceu porque a concorrência aumentou, e metade da equipe muitas vezes nem domina o processo direito, mas segue pressionada a entregar pão quente a cada hora. Isso é sobrecarga e jornada excessiva na veia — dois dos fatores de risco psicossocial que já têm jurisprudência consolidada contra a empresa.
E eu vou direto ao ponto que mais me incomoda: liderança despreparada. Outro dia eu estava treinando uma loja e o gestor me disse, sem perceber o problema na própria fala: "Rafael, entra e sai tanta gente aqui que eu boto pressão no período de experiência. Se o cara ficar, ele mostra que valeu a pena ser treinado." Acontece que quem sai numa empresa não é, na maioria das vezes, por causa de salário. É por causa de liderança tóxica. E liderança tóxica não se resolve criando mais pressão — se resolve com preparo, processo e escuta.
Eu não culpo só o líder. Tem muita gente sobrecarregada, saturada, sem clima bom, sem condição de administrar nada. E o RH, em 90% do varejo alimentar brasileiro, nem sequer tem um sistema estruturado. Eu pergunto a qualquer varejista a margem, o faturamento, o percentual de perda — ele sabe responder na hora. Pergunto quanto ele gastou de rescisão no ano passado, qual o turnover por área, qual a taxa de efetivação — ninguém sabe. Não dá para gerir gente sem dado.

Por que o canal de escuta virou proteção, não burocracia
Converso com prepostos que já foram a audiências trabalhistas envolvendo NR-1, e o que ouço é sempre parecido: o juiz não está preocupado em diagnosticar se o colaborador está de fato com ansiedade ou depressão. Ele quer saber uma coisa: a empresa fez o que deveria fazer? Existe canal de denúncia? Existe protocolo? Em quanto tempo a empresa respondeu?
É a mesma lógica do relógio de ponto. Quando alguém processa por hora extra não paga, o juiz pede o registro. Agora, numa denúncia relacionada a assédio, sobrecarga ou conflito, ele vai pedir o protocolo do canal de escuta, o prazo de resposta, o plano de ação. Um Google Forms anônimo, sem protocolo, sem rastreabilidade, não resolve isso — resolve a intenção, não a comprovação. E é exatamente a comprovação que o juiz cobra.
É por isso que eu passei a recomendar a Central de Escuta, dentro do sistema de RH 360° da Web Jasper, para as redes que eu treino. Não é porque é bonita. É porque ela documenta: cada manifestação — seja denúncia formal, escuta confidencial ou voz aberta — recebe protocolo, prazo por gravidade, comitê de apuração e histórico completo, sem que o colaborador precise se identificar se não quiser. Isso protege os dois lados: o colaborador que precisa de um canal real, e o empresário que precisa provar, se for cobrado, que agiu.

O que eu quero deixar aqui
Eu não tenho interesse nenhum em ver empresa sendo multada, nem em ver colaborador ficando doente. As duas coisas são ruins para o negócio e ruins para vida das pessoas. O que eu defendo, como treinador de gente e como dono de operação, é que a gente pare de tratar gestão de pessoas como departamento pessoal burocrático e comece a tratar como o que ela realmente é: o centro estratégico da empresa. Se o RH não tem indicador, não tem processo, não tem canal formal de escuta, a empresa está exposta — não só à multa, mas ao processo, ao desgaste, e à perda das próprias pessoas boas que ela mais precisa reter.
A NR-1 só deu um prazo para isso virar prioridade. A prioridade, na verdade, já devia ser essa há muito tempo.

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