Marketplace em 2026: vender não é mais suficiente
Estar nas principais plataformas virou requisito básico. A vantagem competitiva está em definir o papel de cada ecossistema na estratégia comercial da marca

Colunista · Especialista em Marketplace

Existia uma época em que entrar em um marketplace significava uma decisão relativamente simples: cadastrar um catálogo, definir preço, organizar estoque e começar a vender. Entretanto, essa lógica envelheceu.
Em 2026, Mercado Livre, Amazon, Shopee, Magalu e iFood ocupam cada vez mais espaço na jornada de compra. Eles concentram audiência, busca, mídia, logística, pagamento, dados e relacionamento.
O TikTok Shop, por sua vez, adicionou outra variável ao colocar conteúdo, creators, entretenimento e venda dentro da mesma experiência.
Para a indústria, isso muda a discussão. Estar nos principais marketplaces já é requisito básico. A vantagem começa na capacidade de entender como cada ecossistema funciona e qual papel deve exercer na estratégia comercial da marca.
O marketplace se tornou uma infraestrutura de consumo
Os movimentos recentes das plataformas mostram essa transformação.
No segundo trimestre de 2026, o Mercado Livre registrou no Brasil crescimento de 39% no GMV em moeda constante e de 56% no número de itens vendidos.
A empresa relaciona parte desse avanço à redução do limite para frete grátis, que aumentou frequência, conversão e retenção. É um exemplo de como logística e preço interferem diretamente na demanda.
A Amazon combina marketplace, operação logística, publicidade e ferramentas para desenvolvimento de marcas. Em seu próprio material para vendedores, organiza as alavancas de crescimento em três frentes: velocidade de entrega, visibilidade dos produtos e preços competitivos.
A Shopee ampliou sua estrutura logística no Brasil e fortaleceu as Lojas Oficiais para aproximar grandes marcas do consumidor. O Magalu foi ainda mais explícito, sua estratégia para 2026 fala em “brandplace”, com marketplace curado, marcas relevantes, nível de serviço, fulfillment, publicidade e integração omnichannel.
O iFood também merece atenção. A plataforma já conecta consumidores a mercados, farmácias, pet shops e outras categorias, enquanto amplia sua frente de retail media. A disputa, portanto, vai muito além da transação.
Cada plataforma pede uma estratégia
Um dos erros que mais vejo na indústria é tratar todos os marketplaces da mesma maneira.
Replica-se catálogo, política comercial, imagens e, muitas vezes, a mesma expectativa de resultado. Só que os ambientes funcionam de formas diferentes.
No Mercado Livre, logística, reputação, competitividade de preço, disponibilidade e mídia pesam na performance.
Na Amazon, conteúdo de produto, construção de marca, Prime, Ads e eficiência logística formam outra combinação.
A Shopee tem uma dinâmica promocional forte, com campanhas, cupons e crescente presença de grandes marcas em lojas oficiais.
O Magalu avança em curadoria, omnicanalidade, serviços e retail media.
O iFood oferece uma relação particular com categorias de alta recorrência e consumo imediato.
E o TikTok Shop exige uma lógica própria porque a descoberta pode acontecer antes mesmo de existir uma intenção de busca.
O TikTok Shop chegou ao Brasil em 2025 integrando vídeos, transmissões ao vivo, creators e compras dentro do aplicativo.
Em 2026, seu programa de afiliados permite que vendedores trabalhem com criadores e acompanhem a performance do conteúdo. Nesse ambiente, o conteúdo participa da própria venda.
A indústria precisa operar canais
Uma estratégia de marketplace para indústria precisa conectar preço, margem, sortimento, estoque, fulfillment, mídia, conteúdo, reputação, dados e relacionamento com os canais tradicionais de distribuição. Uma decisão isolada em qualquer uma dessas frentes pode comprometer as demais.
Esse sempre foi um ponto sensível para os fabricantes. A indústria costuma ter produto, marca e capacidade de investimento, mas vender diretamente ao consumidor exige cuidado para não criar conflito desnecessário com distribuidores, representantes e varejistas que já fazem parte da operação. Essa é, inclusive, uma das questões que mais aparecem no trabalho com indústrias.
Por isso, copiar a mesma estratégia para cinco ou seis plataformas tende a gerar baixa eficiência e perda de controle comercial.
Um produto pode fazer sentido no Mercado Livre pelo volume e pela velocidade logística, enquanto outro encontra melhor oportunidade de construção de marca na Amazon. Um SKU pode ganhar escala promocional na Shopee. Uma categoria de consumo recorrente pode encontrar espaço no iFood. E um lançamento com forte apelo visual pode nascer no TikTok Shop apoiado por creators.
Portanto, a escolha precisa vir antes da execução.
Atualmente, vender em marketplace exige uma arquitetura de canais. A indústria que souber definir o papel de cada plataforma, integrar operação e dados e proteger sua estratégia comercial estará em posição melhor para crescer com consistência. Quem apenas cadastrar produtos estará presente, mas disputará o mercado com menos informação, menos controle e margem mais pressionada.


