Fim das bets: o dinheiro volta, mas não volta inteiro para a gôndola
A MP 1.394/2026 devolve renda ao orçamento das famílias a partir de 9 de outubro. Antes de comemorar, o operador precisa entender para onde esse dinheiro vai primeiro

Colunista · Varejo

Todo mundo no varejo alimentar passou os últimos dois anos reclamando das bets. Com razão. Agora que o governo proibiu, vale baixar a bola e fazer a conta direito, porque já estou vendo gente projetando recuperação de vendas com base em número errado.
O número errado é R$ 350,97 bilhões. É o que pessoas físicas transferiram para plataformas de apostas em 2025, segundo o Comsefaz e o Centro Internacional Celso Furtado, a partir de dados do Banco Central. Esse valor é giro: aposta, prêmio, reaposta, prêmio de novo. Ninguém perdeu R$ 350 bilhões. Quem olhar para esse número e imaginar um terço disso chegando ao caixa vai se frustrar.
O número certo é R$ 62,5 bilhões. É a perda líquida das famílias em 2025 — o que entrou na plataforma e não voltou. Dá 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias e uma média de R$ 4,7 bilhões por mês entre outubro de 2024 e março de 2026. Esse é o dinheiro que, em tese, volta a ser renda disponível.
Colocando ao lado do setor: o Ranking ABRAS 2026, com a NielsenIQ, apurou R$ 1,145 trilhão de faturamento no varejo alimentar em 2025, em valores nominais. Dividi uma coisa pela outra — cálculo meu — e dá 5,5%. Não leia isso como potencial de crescimento. É o teto de um cenário que não existe, em que cada real liberado viraria compra de supermercado.
Não vai virar. A CNC mostrou que 19% dos apostadores cortaram supermercado para bancar a aposta, e o estudo da Tendências com a Peers achou os mesmos 19% em supermercado contra 23% em vestuário. O corte foi em tudo. A devolução vai ser em tudo também. Quem cortou picanha e cortou tênis vai recomprar os dois, e provavelmente o tênis primeiro, porque desejo reprimido pesa mais que reposição de despensa.
Antes de chegar na gôndola, esse dinheiro tem fila
Primeiro da fila: dívida. O crédito para pessoa física cresceu cerca de R$ 450 bilhões em 2025, de R$ 3,97 trilhões para R$ 4,42 trilhões. O Ibevar com a FIA Business School calcula que as apostas respondem por 23% do endividamento das famílias, contra 7% dos juros. Casa endividada não gasta renda nova no supermercado. Paga fatura. Isso leva meses.
Segundo da fila: o hábito não acabou junto com o site. A MP criou comitê de fiscalização coordenado pela Casa Civil, bloqueio de domínio pela Anatel, restrição de meio de pagamento — tudo isso existe porque o governo sabe que a plataforma estrangeira continua a um clique. E as loterias não foram atingidas pela proibição. Quem apostava por impulso no celular não vira comprador de proteína por medida provisória. Vai procurar outro lugar. Quanto disso migra, ninguém sabe, e quem disser que sabe está chutando.
Terceiro: a medida pode não durar. A MP vale desde já, mas o Congresso tem 120 dias para votar. Eu não montaria calendário comercial de 2027 em cima disso.
Agora a parte boa, que tem data marcada
Tem uma janela concreta e curta: entre 9 e 14 de outubro os bancos devolvem os saldos que ficaram nas plataformas. Isso é dinheiro caindo em conta de um público que o Comsefaz descreve bem — o estudo registrou desaceleração das transações logo depois da restrição a beneficiários do Bolsa Família, em outubro de 2025, o que indica participação forte de famílias de baixa renda. Loja de bairro e atacarejo em praça popular vão sentir isso semanas antes de qualquer índice nacional publicar coisa alguma.
Minha recomendação, em três linhas
Trate a segunda quinzena de outubro como data comercial. Não é feriado, é evento de fluxo de caixa doméstico, e evento de caixa doméstico sempre valeu ação promocional. Só não canibalize o Halloween nem a largada de fim de ano.
Persiga unidade, não ticket. O padrão de 2025 foi mais visita, menos item por compra, menos valor por visita. Se a renda voltar, o primeiro lugar em que isso aparece é item por cupom, nas categorias que foram sacrificadas primeiro: proteína, higiene, limpeza de marca líder. Olhe reversão de downtrading antes de mexer em planograma. Quem cortar espaço de marca líder agora e tiver que refazer em fevereiro vai pagar duas vezes.
E dispute o hábito, não só o orçamento. Cashback visível no cupom, recompensa imediata no app, clube com benefício que o cliente sente na hora. É exatamente o mecanismo que a plataforma de aposta explorava, e é o mecanismo que o varejo alimentar historicamente executa mal. Quem já tem base de CPF cadastrada sai na frente.
Sobre "quando as vendas voltam": não sei, e desconfie de quem souber
Não existe leitura pós-fato disso. O que circula é estimativa feita antes da medida, e nem toda estimativa envelheceu bem. A ABRAS chegou a calcular R$ 103 bilhões deixando de ser gastos no varejo por causa das bets, número que rendeu ação judicial da ANJL contra a associação. Seja qual for o mérito, é conta de antes. Não serve para dimensionar o depois.
O primeiro sinal confiável vai aparecer no sell-out semanal das bases de scanner, com poucas semanas de defasagem. Depois vêm a PMC do IBGE de outubro e novembro e os indicadores da ABRAS. Minha expectativa — e registro como expectativa, não como projeção — é efeito marginal e embaralhado no quarto trimestre, porque Natal contamina tudo, e primeira leitura limpa só no primeiro trimestre de 2027. Se a MP sobreviver ao Congresso.
O varejo alimentar não vai acordar rico em novembro porque as bets caíram. Vai, isso sim, parar de perder. Já é bastante.


