O mercado pet mira R$ 81,35 bilhões — e os gatos entram no centro da conversa
Projeção da ABEMPET para 2026 aponta crescimento de 4,35%. A expansão dos felinos pode abrir uma frente importante para o setor

Colunista · Pet Shop

A projeção de faturamento do mercado pet brasileiro para 2026 é de R$ 81,35 bilhões, 4,35% acima dos R$ 77,96 bilhões registrados em 2025. A estimativa é atribuída à Associação Brasileira das Empresas do Setor de Animais de Estimação (ABEMPET) e foi calculada com base no desempenho do primeiro semestre. A Band divulgou o valor arredondado para R$ 81 bilhões. É uma previsão, não o resultado fechado do ano, distinção importante para um setor que costuma ser apresentado por cifras grandes, mas precisa acompanhar também o ritmo e a composição desse crescimento.
A composição projetada ajuda a entender onde está o peso do mercado. Pet food deve responder por 52,8% do faturamento, cerca de R$ 42,9 bilhões. A dimensão da categoria confirma a importância da alimentação na rotina de compra e na receita da cadeia. Também coloca uma pergunta para fabricantes, distribuidores e lojistas: quanto do crescimento esperado virá da ampliação da base de clientes e quanto dependerá de conquistar uma parcela maior das compras recorrentes?
Uma pista sobre possíveis mudanças na composição da demanda está nos gatos. Ao apresentar dados do estudo da ABEMPET sobre população pet, a Band aponta os felinos como o grupo com crescimento percentual mais acelerado nos lares brasileiros. A matéria associa o avanço a mudanças no modo de vida urbano, mas esse dado, por si só, não detalha quantos gatos foram incorporados à população nem quanto cada tutor gasta. Ainda assim, é um sinal que merece atenção, uma alteração na presença relativa de espécies pode, com o tempo, repercutir em categorias, formatos de produto, serviços e canais de venda.
Há um paralelo interessante embora não seja uma comparação direta nos Estados Unidos. Em setembro de 2026, as vendas de ração para gatos cresceram 11% em relação ao mesmo mês do ano anterior entre os 15 varejistas monitorados pela YipitData. Para ração de cães, o avanço foi de 3%. No Costco, as altas reportadas foram de 31% para gatos e 15% para cães. Os dados foram divulgados pela publicação especializada Petfood Industry com base no relatório mensal da YipitData, que combina informações de recibos digitais, cartões e monitoramento de comércio eletrônico. Eles medem vendas no varejo americano; não demonstram o mesmo comportamento no Brasil nem permitem concluir, sozinhos, que a população felina esteja crescendo na mesma proporção.
O valor desse paralelo está em mostrar por que acompanhar os gatos pode ser estratégico. Se o segmento ganha participação nos lares e também aumenta sua importância nas compras, a resposta não é simplesmente adaptar ao gato o portfólio pensado para cães. São espécies com necessidades, hábitos de consumo e categorias próprias. Para o varejo, isso pode significar observar com mais cuidado a variedade e a disponibilidade de alimentos, areia, itens de higiene, acessórios e serviços voltados aos felinos. Para a indústria, significa entender quais necessidades estão sendo atendidas e quais lacunas ainda existem em vez de presumir que uma tendência observada fora do país já se reproduz aqui.
O desafio é transformar o sinal demográfico em decisão comercial bem fundamentada. Isso pede acompanhamento local de vendas por espécie, frequência de recompra, desempenho por canal e diferenças regionais. Também pede separar crescimento em faturamento de aumento em volume: preços, mix de produtos e inflação podem alterar o valor vendido sem que o número de unidades cresça na mesma medida.
A projeção de R$ 81,35 bilhões dá ao setor uma referência para 2026; o avanço dos gatos acrescenta uma pergunta sobre como esse mercado pode estar mudando por dentro. Nenhum dos dois sinais garante, isoladamente, crescimento para cada empresa. Mas, juntos, ajudam a construir uma agenda mais precisa: medir a evolução com rigor, reconhecer as particularidades dos felinos e preparar ofertas que respondam à demanda real. Mais do que perseguir a cifra projetada, o próximo passo é entender quem estará por trás dela e o que essas famílias precisarão comprar.


