Perdi a eleição que eu queria. Não vou perder a minha operação
Com a eleição decidida, o que resta ao varejista é o que sempre esteve na mão dele: custo, time, ruptura, margem e atendimento — e duas datas no calendário de 2027 que não dependem de quem ganhou

Colunista · Varejo & Liderança

Domingo à noite eu vi o resultado e senti o mesmo que muita gente do varejo sentiu: vazio. Uma mistura de insegurança com impotência. Lula venceu um segundo turno apertado, num país que já estava rachado antes da apuração começar. Flávio terminou o primeiro turno na frente e perdeu no segundo. Doeu.
Escrevo isso sem rodeio, porque é assim que eu falo e porque você merece honestidade, não consolo.
Por que eu me posicionei
Nos últimos meses eu postei sobre política. Muita gente reclamou. Teve quem dissesse que varejo não é lugar de bandeira, que eu ia perder seguidor, que eu estava misturando as coisas. Perdi seguidor mesmo. E faria tudo de novo.
Fiz porque eu sou de direita e nunca escondi isso. Venho de família humilde, de refugiados que chegaram ao Brasil sem nada. O que eu tenho a perder? Nada que eu não tenha construído com as minhas próprias mãos.
Peço desculpas a quem se incomodou. Mas se eu não falasse, quem falaria? Eu não vi um influenciador de varejo deste país se posicionar em prol da direita. Nenhum. E olha que a gente conhece todo mundo. Cada um faz o que quiser da própria vida, não vou julgar o trabalho de ninguém — mas eu me senti no dever de carregar essa responsabilidade, e carreguei.
A urna falou. Respeito o resultado. Não concordo com ele. E sigo achando que ele vai cobrar caro do nosso setor.
O que eu enxergo para 2027
Minha leitura é que o ano que vem será mais apertado que este. É a minha leitura — você pode discordar, e seria ótimo que eu estivesse errado.
Quando a economia desanda, o juro sobe. Quando o juro sobe, o poder de compra cai. Isso não é teoria, é o que você vê no seu PDV todo dia: o cliente levando menos e pagando mais pelo mesmo carrinho. O produto inflacionado, o ticket espremido, mais esforço comercial para vender o que você vendia com tranquilidade dois anos atrás.
E some a isso o que já está no calendário, independentemente de quem ganhou.
Split payment. A reforma tributária entra na fase que importa para o caixa: a CBS passa a ser cobrada em 1º de janeiro de 2027, e o split payment é liberado no segundo semestre do mesmo ano, em duas etapas — agosto e outubro —, de forma facultativa e restrita às operações entre empresas. A Receita Federal já indicou que a obrigatoriedade no B2B fica para 2028. Ou seja: você tem prazo, mas não tem muito. Quando o mecanismo entrar de fato, o imposto deixa de passar pelo seu caixa, e aquela folga de capital de giro entre vender e recolher simplesmente acaba. Quem só for olhar para o fluxo de caixa quando a obrigatoriedade bater vai descobrir o tamanho do buraco do pior jeito possível: no dia 10, sem dinheiro para pagar fornecedor.
Jornada de trabalho. Aqui não cabe mais discutir “se”. O fim da escala 6x1 já é Emenda Constitucional, a EC 141, promulgada em 16 de outubro. A transição tem duas etapas: em 15 de dezembro, 60 dias depois da promulgação, a jornada máxima cai de 44 para 42 horas e os dois dias de descanso semanal já passam a valer; doze meses depois, a jornada vai a 40 horas. Durante a transição, acordo ou convenção coletiva pode redistribuir a jornada diária, desde que os dois repousos sejam mantidos.
Leia de novo a data: 15 de dezembro. No meio do seu pico de Natal. A conta é esta: mais gente para cobrir o mesmo horário de loja, escala de sábado, domingo e feriado refeita do zero, custo de folha por metro quadrado maior. Quem está deixando para mexer nisso em janeiro já está atrasado.
O que fazer a partir de agora
Aqui é onde eu quero chegar, porque lamentação não abre loja.
Nós somos do varejo. Somos forjados na guerra todo santo dia, enfrentamos dez leões antes do almoço. Então eu pergunto honestamente: como é que a gente ia parar num cenário como esse? Se o varejista desanima, esse país tomba de vez. E não é esse o nosso propósito de vida.
Então olhe para dentro do seu negócio como você nunca olhou. Sem relaxo.
Custo. Abra a sua DRE linha por linha, não por grupo. Energia, manutenção, embalagem, frete, aluguel, software que ninguém mais usa. O que não gera venda nem protege a operação está só comendo a sua margem.
Gente. Pare de carregar quem não entrega. Isso não é crueldade, é respeito com quem entrega. Faça com que cada pessoa honre o salário que recebe — e, para isso, deixe claro o que você espera dela, porque na maioria das lojas a pessoa improdutiva nunca foi avisada de que estava sendo improdutiva.
Processo. Operação boa não depende de herói. Depende de rotina escrita, de responsável com nome e de conferência. Se a sua loja só funciona quando você está dentro dela, você não tem um negócio, tem um emprego muito caro.
Prevenção de perdas. É o dinheiro mais barato que existe na sua loja, porque já é seu. Quebra, validade, ruptura, furto, erro de recebimento. Cada ponto percentual recuperado aqui vale mais do que uma promoção inteira.
Venda. Foco obsessivo no aumento de venda, todos os dias. Mix, exposição, ponto extra, perecível bem cuidado, atendimento que faz o cliente voltar. Em ano apertado, quem encolhe a oferta encolhe junto.
Liderança. Aprenda a se posicionar. Delegue mais, treine mais, cobre mais e esteja mais presente. O seu time vai sentir o humor do país pelo noticiário — cabe a você dar a ele um lugar onde as coisas funcionam.
O que está na nossa mão
Eu não controlo quem senta na cadeira em Brasília. Controlo o meu custo, o meu time, a minha ruptura, a minha margem e o meu atendimento. Você também.
Não dá para desistir e não dá para retroceder. A gente tem que continuar acreditando — e acreditar, no varejo, é um verbo que se conjuga com planilha aberta e loja cheia.
Você não escolheu esse cenário. Mas é você quem escolhe, toda manhã, que loja vai destrancar. Essa parte nenhuma eleição tira da nossa mão. Vamos ao trabalho.


