Pular para o conteúdo

O fim da escala 6x1 vai acontecer. A conta é que ainda não foi feita

Fim da escala 6x1 pode aumentar custos e exigir novas contratações no varejo; transição, impacto por porte e realidade operacional precisam entrar na discussão

Retrato de Rafael Haddad

Rafael Haddad

Colunista · Varejo & Liderança

· 3 min de leitura

Compartilhar
O fim da escala 6x1 vai acontecer. A conta é que ainda não foi feita

Quando alguém defende o fim da escala 6x1, a resposta automática do varejo costuma ser um não. Quando alguém defende a manutenção, a resposta automática do outro lado é acusar o setor de explorar. Nenhuma das duas resolve a escala que o gerente pendura na parede da sala dele todo mês.
Começo pelo que importa: eu concordo que a 6x1 precisa acabar.
Para o trabalhador, mais descanso significa menos absenteísmo por exaustão e melhor qualidade de vida. Funcionário descansado erra menos, atende melhor e fica mais tempo na empresa. Turnover no varejo é um dos maiores custos escondidos do setor, e a gente finge que não vê isso no balanço.
O problema nunca foi o mérito. É o método.

O que a mudança custa, na prática
Fiz a conta de uma loja média. Uma unidade só, de 1.200 metros quadrados, que é o retrato da maioria das empresas do setor no Brasil. Time de 120 pessoas.
Para virar 5x2 mantendo os mesmos dias de funcionamento, é preciso cobrir o dia a mais de folga de cada um. Isso significa contratar cerca de 26 pessoas, um aumento de quase 22% no quadro. Simulando todo mundo no salário mínimo e jogando tudo por baixo, o impacto passa de R$ 650 mil por ano. Numa loja só.
Esse número não aparece do nada, e não some sozinho. Ele sai de algum lugar, e as saídas são poucas: vai para o preço do cliente, empurra gente para a informalidade, ou vira corte de time e queda no nível de serviço.
Agora multiplique isso por milhares de varejistas, de todo formato, num setor que trabalha com margem líquida na casa de 2%.
Rede grande tem escala para absorver. Rede regional e independente, não. O risco real é o ajuste forçado chegar antes que a precificação consiga acompanhar.

Reforma trabalhista não se faz com oportunismo político
E aqui está a parte que mais me incomoda.
Mexer na jornada de um setor que emprega milhões, opera no limite e sustenta o abastecimento do país exige estudo, teste e responsabilidade. Acelerar uma mudança dessa magnitude no grito, sem análise técnica profunda e sem ouvir quem está na operação, pode gerar desemprego, pressão inflacionária e quebrar pequenos varejistas no caminho.
É impossível não notar em que período estamos. Transformar uma discussão dessa seriedade em plataforma eleitoral, usando o cansaço real do trabalhador como combustível, não resolve o cansaço de ninguém.
Reforma trabalhista não se faz com oportunismo político. Se faz com dados, planejamento e realidade. Quando a pauta entra no calendário eleitoral, ela deixa de ser discutida pelo que produz e passa a valer pelo que rende em palanque. E aí a decisão sai antes da conta.
Supermercado opera sete dias por semana, de 12 a 16 horas por dia. Não tem como fechar domingo, não tem como pausar. A operação não para e o time precisa cobrir cada turno. Em mais de 1.300 supermercados que já visitei, nunca vi essa conta ser fácil em nenhum deles. Quem decide sem entender isso decide sobre algo que não conhece.

O que eu defendo
A 6x1 precisa acabar. Mas precisa acabar com transição desenhada, com prazo, com estudo de impacto por porte de empresa e com a operação na mesa.
Enquanto a discussão for feita no ritmo do calendário eleitoral e não no ritmo do que a conta exige, quem arca com as consequências é sempre o elo mais fraco da corrente.


Leia também