O fim da escala 6x1 vai acontecer. A conta é que ainda não foi feita
Fim da escala 6x1 pode aumentar custos e exigir novas contratações no varejo; transição, impacto por porte e realidade operacional precisam entrar na discussão

Colunista · Varejo & Liderança

Quando alguém defende o fim da escala
6x1, a resposta automática do varejo costuma ser um não. Quando
alguém defende a manutenção, a resposta automática do outro lado
é acusar o setor de explorar. Nenhuma das duas resolve a escala que
o gerente pendura na parede da sala dele todo mês.
Começo pelo
que importa: eu concordo que a 6x1 precisa acabar.
Para o
trabalhador, mais descanso significa menos absenteísmo por exaustão
e melhor qualidade de vida. Funcionário descansado erra menos,
atende melhor e fica mais tempo na empresa. Turnover no varejo é um
dos maiores custos escondidos do setor, e a gente finge que não vê
isso no balanço.
O problema nunca foi o mérito. É o
método.
O que a mudança custa, na prática
Fiz
a conta de uma loja média. Uma unidade só, de 1.200 metros
quadrados, que é o retrato da maioria das empresas do setor no
Brasil. Time de 120 pessoas.
Para virar 5x2 mantendo os mesmos
dias de funcionamento, é preciso cobrir o dia a mais de folga de
cada um. Isso significa contratar cerca de 26 pessoas, um aumento de
quase 22% no quadro. Simulando todo mundo no salário mínimo e
jogando tudo por baixo, o impacto passa de R$ 650 mil por ano. Numa
loja só.
Esse número não aparece do nada, e não some
sozinho. Ele sai de algum lugar, e as saídas são poucas: vai para o
preço do cliente, empurra gente para a informalidade, ou vira corte
de time e queda no nível de serviço.
Agora multiplique isso
por milhares de varejistas, de todo formato, num setor que trabalha
com margem líquida na casa de 2%.
Rede grande tem escala para
absorver. Rede regional e independente, não. O risco real é o
ajuste forçado chegar antes que a precificação consiga
acompanhar.
Reforma trabalhista não se faz com
oportunismo político
E aqui está a parte que mais me
incomoda.
Mexer na jornada de um setor que emprega milhões,
opera no limite e sustenta o abastecimento do país exige estudo,
teste e responsabilidade. Acelerar uma mudança dessa magnitude no
grito, sem análise técnica profunda e sem ouvir quem está na
operação, pode gerar desemprego, pressão inflacionária e quebrar
pequenos varejistas no caminho.
É impossível não notar em que
período estamos. Transformar uma discussão dessa seriedade em
plataforma eleitoral, usando o cansaço real do trabalhador como
combustível, não resolve o cansaço de ninguém.
Reforma
trabalhista não se faz com oportunismo político. Se faz com dados,
planejamento e realidade. Quando a pauta entra no calendário
eleitoral, ela deixa de ser discutida pelo que produz e passa a valer
pelo que rende em palanque. E aí a decisão sai antes da
conta.
Supermercado opera sete dias por semana, de 12 a 16 horas
por dia. Não tem como fechar domingo, não tem como pausar. A
operação não para e o time precisa cobrir cada turno. Em mais de
1.300 supermercados que já visitei, nunca vi essa conta ser fácil
em nenhum deles. Quem decide sem entender isso decide sobre algo que
não conhece.
O que eu defendo
A 6x1 precisa
acabar. Mas precisa acabar com transição desenhada, com prazo, com
estudo de impacto por porte de empresa e com a operação na
mesa.
Enquanto a discussão for feita no ritmo do calendário
eleitoral e não no ritmo do que a conta exige, quem arca com as
consequências é sempre o elo mais fraco da corrente.


