Super El Niño e petróleo colocam a inflação de alimentos de volta no radar do segundo semestre
Abras aponta combinação de choque climático e custo logístico como principais vetores de alta; safras de arroz e feijão já entram no ciclo enfraquecidas

O alívio nos preços dos alimentos que sustentou o volume nas lojas no primeiro semestre tem prazo de validade. A Associação Brasileira de Supermercados (Abras) avalia que a combinação entre o conflito no Oriente Médio e a formação de um El Niño de intensidade excepcional deve pressionar o custo de itens básicos a partir do segundo semestre, com efeito mais severo sobre o consumidor em 2027.
Segundo a entidade, o movimento atinge toda a cadeia de abastecimento, e não apenas o preço final na gôndola. A cesta de itens básicos monitorada pela Abras acumulava alta de quase 7% no ano em maio, quando chegou a R$ 854.
Dois choques com prazos diferentes
O quadro combina dois vetores que operam em velocidades distintas, e a distinção importa para o planejamento comercial.
O primeiro é o custo de energia e transporte. Desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã, em fevereiro, as cotações do Brent e do WTI chegaram a US$ 120 nas primeiras semanas e seguem voláteis diante das incertezas sobre o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto das exportações mundiais de petróleo. Esse componente atravessa a cadeia rapidamente, via frete rodoviário, embalagem e insumos agrícolas, e é o que tende a aparecer nos custos ainda neste semestre.
O segundo é agrícola e tem defasagem maior. O aquecimento do Pacífico Equatorial pode superar 2 °C, patamar que levou meteorologistas a classificar o fenômeno como Super El Niño. O impacto se distribui de forma desigual pelo país: chuvas acima da média e maior risco de temporais e cheias no Sul, estiagens mais prolongadas no Norte e no Nordeste, temperaturas elevadas e ondas de calor no centro-norte. Arroz, feijão, hortaliças, frutas, milho e produção de leite estão entre as cadeias mais sensíveis a essas variações de temperatura e umidade.
Estimativas citadas em análises do setor apontam que os efeitos climáticos podem adicionar até 0,9 ponto percentual ao IPCA de 2027, ano para o qual o Boletim Focus projetava inflação de 4,22% na época da publicação.
Arroz e feijão entram vulneráveis
A preocupação com os dois grãos vem do ponto de partida. A safra brasileira de arroz 2025/26 recuou cerca de 13%, enquanto a produção de feijão caiu aproximadamente 5%. O Rio Grande do Sul, que concentra parcela majoritária da produção nacional de arroz, é justamente a região com maior probabilidade de chuvas excessivas no ciclo do El Niño, o que compromete plantio, colheita e qualidade de grão.
Para o varejo alimentar, arroz e feijão têm peso desproporcional à sua margem. São itens de destino, usados pelo consumidor como referência de preço para julgar a loja inteira. Uma alta expressiva nessas duas linhas afeta a percepção de competitividade muito além do que representam no faturamento.
O que muda na operação do supermercado
O setor entra nessa transição em posição confortável de curto prazo e frágil de médio. A deflação recente em alimentação no domicílio ajudou a sustentar volume e liberou renda para outras categorias, mas comprime o ticket nominal. A reversão do ciclo faz o movimento inverso: recompõe faturamento nominal e ataca o volume, num consumidor que já demonstra alta sensibilidade a preço e circula entre canais em busca da melhor cesta.
Três frentes concentram a decisão nos próximos meses:
Negociação e cobertura de estoque. As categorias de ciclo curto, como hortifrúti, são as primeiras a reagir ao clima e as que menos permitem estocagem. Já grãos, óleos e mercearia seca aceitam antecipação de compra. A janela para travar condição com a indústria antes que o repasse se consolide é o segundo semestre.
Marca própria e primeiro preço. Em ciclo inflacionário, a migração para itens de menor valor unitário acelera. Redes com linha de entrada estruturada capturam essa troca dentro da própria loja; redes sem ela perdem a compra para o concorrente.
Gestão de ruptura. Choques climáticos se manifestam primeiro como falta de produto, não como preço alto. Ruptura em item de destino durante período de escassez custa mais do que a margem perdida no repasse, porque desloca a frequência de visita.
O que monitorar
Os boletins conjuntos do Inmet e do Inpe sobre a intensidade do fenômeno, os levantamentos de safra da Conab para arroz, feijão e milho, e o comportamento do IPCA-15 nos próximos meses são os indicadores que vão definir se o repasse chega ainda em 2026 ou se concentra em 2027. O grupo alimentação no domicílio, que vinha atuando como âncora de desinflação, é o item a acompanhar.


