Setor pet fatura R$ 81 bilhões em 2026, mas o crescimento migrou do produto para o serviço
Com pet food estagnado e alta nominal abaixo da inflação em 2025, a rentabilidade do varejo pet passou a depender de banho e tosa, clínica e recorrência digital

O
mercado pet brasileiro deve movimentar R$ 81,24 bilhões em 2026,
avanço de 4,21% sobre o ano anterior, segundo dados compilados de
Abempet e Instituto Pet Brasil. O número mantém o Brasil na
terceira posição mundial em faturamento, atrás de Estados Unidos e
China, mas esconde uma virada relevante para quem opera loja: o
dinheiro novo já não vem da prateleira.
O ano em que a conta parou de fechar sozinha
O setor fechou 2025 com R$ 77,96 bilhões, crescimento nominal de 3,56%. Com IPCA acima disso, o resultado representou a primeira queda real em seis anos e o pior desempenho desde 2019. Inflação, câmbio pressionando ingredientes de ração e desaceleração do consumo explicam a maior parte do freio.
O problema é estrutural, não conjuntural. O pet food responde
por 52,86% do faturamento do setor em 2026 e é justamente a
categoria com menor avanço. Ou seja: mais da metade da receita do
varejo pet está concentrada em uma categoria de giro alto, margem
comprimida e sensibilidade direta a preço, em um momento em que o
tutor compara valores com facilidade.
Onde a margem ainda cresce
Os serviços gerais, que incluem banho, tosa e hospedagem, avançam 5,23% em 2026. Os serviços veterinários crescem 4,65%. Ambos superam a média do setor e, mais importante, operam com estrutura de custo diferente: dependem de mão de obra qualificada e agenda, não de estoque parado.
Para o lojista, a leitura prática é direta. Uma loja que vende
ração e acessórios disputa preço com marketplace e atacarejo. Uma
loja que agenda banho, vende plano de tosa mensal e encaminha para
consulta veterinária constrói frequência e ticket recorrente. O
Instituto Pet Brasil já registrou que o faturamento de pet shops
sobe em média 20% no último trimestre do ano, puxado por premium,
acessórios e serviços de estética, o que reforça o serviço como
alavanca de sazonalidade.
Digital sem abandonar o balcão
O e-commerce pet deve somar R$ 6,91 bilhões em 2026, cerca de 8,5% do total do setor. É crescimento consistente, mas ainda uma fatia minoritária, e a jornada de compra segue ancorada no físico: pesquisa da SBVC com o Instituto QualiBest indica que quatro em cada dez tutores vão à loja, 25% alternam entre canais e 22% concentram compras no ponto de venda.
O erro comum é tratar digital como canal de venda substituto. O
uso mais rentável para o pequeno e médio operador é de retenção:
assinatura de ração com entrega programada, agendamento online de
banho e tosa, lembrete de vacina e vermífugo. São mecanismos que
fixam o cliente sem exigir estrutura logística própria.
O que ainda derruba operação
Três fatores concentram a mortalidade no segmento: custo fixo crescente sem revisão de mix, ausência de controle de CMV e leitura equivocada do perfil de consumo do entorno. Some-se a carga tributária, agravada pela permanência do pet food fora das alíquotas reduzidas da reforma, o que limita o repasse ao consumidor.
Pequenas e médias empresas respondem por perto de metade do faturamento do setor, o que significa que a maior parte desse mercado é operada por negócios com pouca folga de capital. Em um ano de crescimento real próximo de zero, abrir loja apostando em expansão de demanda tende a frustrar. Abrir com serviço estruturado, mix definido por bairro e controle de recorrência é outra conta.
Um dado adicional muda o sortimento: os gatos são a espécie que mais cresce, alta de 4,5%, empurrada pela urbanização e por moradias menores. A população felina brasileira chega a 33,3 milhões. A maioria das lojas ainda monta gôndola pensando em cão.


