Bets retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias em 2025, e perda se concentra na baixa renda
Exercício do Made, da FEA/USP, estima que a redução de consumo equivale a entre 0,9% e 1,1% do PIB

A transferência líquida das famílias brasileiras para as plataformas de apostas somou cerca de R$ 62,5 bilhões em 2025 — a diferença entre o total apostado e o que os apostadores receberam de volta. A estimativa é do Centro Celso Furtado e foi usada como ponto de partida por um exercício do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA/USP), publicado em 24 de agosto e assinado pelo pesquisador Guilherme Klein.
A partir desse valor, o exercício estima que as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025, por redução do consumo, o equivalente a algo entre 0,9% e 1,1% do PIB. Segundo o texto, a perda corresponde a entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia no ano e é cerca de cinco vezes maior que estimativas do impacto do tarifaço americano sobre o PIB brasileiro.
Perda concentrada em quem gasta a renda toda
O ponto central da estimativa, e o que interessa a quem opera loja, não é o tamanho da transferência, mas onde ela se concentra.
O cálculo parte da propensão marginal a consumir por faixa de renda, que mede quanto de cada R$ 1 adicional de renda se converte em consumo. De acordo com o texto, ela tende a ser maior entre famílias de menor renda, porque uma parcela maior de suas necessidades ainda precisa ser atendida, e um aumento de renda costuma se transformar mais diretamente em gastos com alimentação, moradia e vestuário. Entre famílias de maior renda, parcela maior da renda adicional pode ser poupada.
A consequência aparece na conclusão do exercício: quanto mais concentrada nas famílias mais pobres for a perda de renda para as apostas, maior o efeito sobre o consumo agregado.
Os dois cenários testados usam distribuições diferentes. No primeiro, a distribuição das perdas acompanha a dos próprios apostadores, a partir do DataSenado e do IPESPE/FEBRABAN, ambos de 2024. No segundo, o gasto é mais concentrado nas faixas de renda mais altas, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018 do IBGE, para a categoria mais ampla "jogos e apostas" — o autor ressalva que o tamanho dessa categoria pode estar subestimado, por se referir a um período anterior à expansão das bets.
Arrecadação direta não compensa a perda, diz o exercício
O texto também estima o efeito sobre as contas públicas. Assumindo que uma queda de 1% do PIB provoca queda entre 0,8% e 1,2% na arrecadação, e considerando carga tributária bruta do Governo Geral de cerca de 32,4% do PIB em 2025, a perda de arrecadação ficaria entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões.
Descontados os cerca de R$ 9 bilhões arrecadados diretamente das plataformas, o efeito líquido sobre as contas públicas permaneceria negativo em, no mínimo, R$ 22 bilhões, podendo chegar a R$ 46 bilhões. O exercício registra que esse intervalo equivale, respectivamente, a 10% e 20% de todo o orçamento destinado à saúde pública na Lei Orçamentária Anual de 2025.
Do lado do emprego, o texto considera a estimativa da LCA Consultores de cerca de 15,5 mil trabalhadores ligados ao setor, cuja massa salarial poderia gerar até R$ 1 bilhão de renda na economia. Segundo o autor, mesmo levando isso em conta, o quadro praticamente não muda.
Endividamento e distribuição de renda
Há uma hipótese alternativa no texto: em vez de reduzir o consumo, parte das apostas pode ter aumentado o endividamento. Nesse caso, considerando que o saldo de crédito para pessoas físicas subiu cerca de R$ 450 bilhões em 2025, de R$ 3,97 trilhões para R$ 4,42 trilhões, se toda a transferência líquida tivesse sido financiada por crédito novo — hipótese que o autor classifica como extrema —, ela corresponderia a cerca de 14% do aumento do endividamento das famílias no ano.
O exercício estima ainda que a transferência elevou a concentração de renda no 1% mais rico entre 0,5% e 2,1%, conforme a hipótese adotada sobre quem recebe os lucros das casas de aposta.
O material foi publicado no blog do Made, que mantém suas Notas de Política Econômica e working papers em seções distintas. O próprio texto se apresenta como exercício de dimensionamento.
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