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Aposta e caneta emagrecedora entram na disputa pelo orçamento do supermercado

Estudos de NielsenIQ, Scanntech e Strategy& medem quanto cada um dos dois gastos retira da cesta de alimentos. Os efeitos são diferentes: um reduz volume, o outro troca categorias

· 4 min de leitura

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Aposta e caneta emagrecedora entram na disputa pelo orçamento do supermercado

O orçamento das famílias brasileiras chega ao supermercado com pouca folga. Levantamento da Serasa Experian, elaborado com a versão 5.0 da Solução Renda, aponta que em 2025 o comprometimento com despesas financeiras gerais, que incluem dívidas, contas básicas e gastos essenciais, variou de 71,9% no Sul a 80,5% no Norte. O Nordeste registrou 78%, o Centro-Oeste, 74,7%, e o Sudeste, 72,7%. Os índices vêm caindo desde 2022, quando o Norte marcava 81,9% e o Sul, 73,2%.

Dentro dessa margem restante, duas despesas que quase não existiam há alguns anos passaram a ser medidas por institutos que acompanham o varejo alimentar.

Aposta: menos itens no carrinho

Estudo da Strategy&, braço de consultoria da PwC, com base na Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE, aponta que a penetração das apostas no orçamento familiar médio subiu de 0,2% em 2018 para 0,7% em 2023. A categoria passou a representar 38% de todos os gastos com lazer e cultura, contra 10% em 2018, e 4,4% dos gastos com alimentação, ante 1,5%. Nas classes D e E, o peso chega a 1,38% do orçamento, equivalente a 76% das despesas dessas famílias com lazer e cultura ou 5% do que gastam com alimentação.

O estudo Apostas na Mesa, Consumo em Jogo, divulgado pela NielsenIQ Brasil em março, mostra que 26,3% dos domicílios brasileiros fizeram algum tipo de aposta em 2025. Entre os lares apostadores, 49% enxergam a prática como forma de obter renda extra e 43,5% apostam esperando mudança significativa de vida.

Dez por cento dos lares apostadores admitem substituir algum gasto para acomodar a aposta. Dentro desse grupo, 47% apontam a categoria de alimentos como a que perde espaço, e 45,3% dizem que o impacto maior recai sobre contas fixas de água, luz e internet. A principal estratégia para acomodar a nova despesa é reduzir a quantidade de itens comprados: 60% das categorias analisadas registraram queda no volume adquirido.

Segundo Gabriel Fagundes, líder de insights para a indústria da NielsenIQ, a pesquisa dimensiona o espaço que a prática ocupa dentro dos gastos do domicílio e da renda dos apostadores.

As modalidades mais citadas não são as apostas esportivas. A Mega-Sena aparece em 15,8% dos lares apostadores e o chamado jogo do tigrinho, em 7,7%, seguidos pelo jogo do bicho, com 3,9%, e pelas bets, com 3,6%. O tigrinho concentra apostadores de nível socioeconômico médio, com 63,3%, enquanto a Mega-Sena tem maior presença de nível alto, com 45,5%. Entre os canais de compra, o cash and carry foi o que mais avançou nos dois grupos em 2025, com alta de 1,8 ponto percentual entre lares apostadores e de 1,6 ponto entre não apostadores.

GLP-1: troca de categorias dentro da cesta

Estudo da Scanntech divulgado em junho estima que o avanço dos medicamentos à base de GLP-1 reduz em 0,49% ao ano o volume total de alimentos vendidos nos supermercados brasileiros. O cálculo isola o crescimento do consumo desses medicamentos de fatores como renda, emprego, endividamento e condições climáticas. O mesmo levantamento aponta que o uso cresceu 239% no primeiro trimestre de 2026 sobre igual período do ano anterior, considerando a soma do mercado formal com a estimativa do informal, que pode responder por mais da metade das doses consumidas no país.

O efeito não é uniforme. Bebidas recuam 0,91% ao ano, perecíveis embalados, 0,66%, mercearia, 0,53%, e mercearia básica, 0,43%. Por categoria, cerveja cai 1,03%, petiscos e snacks, 0,82%, chocolate, 0,72%, biscoitos, 0,63%, goma de mascar e refrigerantes, 0,55% cada, e balas e pirulitos, 0,51%. Na direção oposta, alimentos frescos avançam 11,5%, academia e bem-estar, 9,6%, suplementos proteicos, 9,1%, água com e sem gás, 7,9%, e vitaminas e suplementos, 7,4%.

Análise da NielsenIQ mede o lado do orçamento. Cinco por cento dos lares brasileiros têm ao menos um usuário do medicamento, e outros 26% declaram interesse. Entre os usuários, 63% desembolsam mais de R$ 800 por mês e 84% relatam impacto alto ou moderado nas finanças. Para manter o tratamento, 62% precisaram reduzir despesas, com destaque para saídas a bares, citadas por 61%, serviços, por 56,6%, restaurantes, por 54,9%, e lazer, por 50%. Mercado aparece com 16,4%.

O mesmo estudo descreve uma reorganização em que categorias com pontos de preço mais altos, saídas a bares, indulgências e bebidas alcoólicas perdem espaço, enquanto proteínas e alimentos frescos ganham relevância. Entre os 800 principais lançamentos monitorados pela NielsenIQ em doze meses, itens com alegação de alto teor proteico, baixo ou zero açúcar e baixo ou zero álcool tiveram desempenho em volume cerca de 50% superior à média.

O que muda com o fim da patente

A patente da semaglutida expirou em março de 2026, o que autoriza a entrada de genéricos. Segundo a Euromonitor, 5,5% dos brasileiros já utilizam GLP-1, proporção acima da média global de 3,7%. O Itaú BBA projeta que o mercado formal possa chegar a R$ 30 bilhões em 2027, com recuo de até 50% no preço em cinco anos.

Em 2025, o Brasil importou GLP-1 no valor de US$ 1,7 bilhão, mais do que gastou com salmão, celulares ou azeite de oliva, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços citados pela Strategy&.

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